NUTRIÇÃO EM PROL DA MELHOR IDADE SEM
ALZHEIMER
Retirado do site da VP Consultoria Nutricional.
“O que a ciência já sabe sobre a doença de Alzheimer”,
esse é o título da matéria publicada pela revista “Viva Saúde”.
Mas será que tudo que se sabe para o controle dessa condição apenas envolve
descoberta de genes, avanço no diagnóstico, novos remédios e vacinas?
O texto
aborda o efeito degenerativo da doença, o que pode ser didaticamente elucidado
no site da Alzheimer’s Association em uma apresentação disponível em português:
A viagem ao cérebro (http://www.alz.org/alzheimers_disease_4719.asp).
Contudo,
a reportagem deixa uma grande interrogação no que diz respeito à nutrição e
alimentação.
O cérebro, assim como todo o restante do nosso
organismo, é formado por células.
Sua estrutura e função dependem dos nutrientes.
Estudos mostram que inúmeros aspectos da cognição são comprometidos pela má
nutrição desde a infância. Observando a realidade alimentar da população
brasileira e global, não é de se espantar que 8,7% das crianças entre 8 e 15
anos foram “rotuladas” com TDAH ou transtorno do déficit de atenção e
hiperatividade, e 1 em cada 10 crianças tomem medicamentos estimulantes como
ritalina. Já o autismo afeta 1 em cada 166 crianças e sua incidência aumentou
em 11 vezes na última década.
Problemas com o aprendizado afetam entre 5% e 10% das
crianças em idade escolar. A doença de Alzheimer (DA) é o comprometimento
cerebral após longa data de desequilíbrios, que hoje já afetam as crianças.
A Alzheimer’s Disease International (ADI) estima que
existam atualmente 30 milhões de pessoas com demência no mundo, e 4,6 milhões
de novos casos anualmente (um novo caso a cada 7 segundos); assim, em 2050 mais
de 100 milhões de pessoas poderão estar afetadas, principalmente pessoas da
terceira idade. A DA é a forma mais comum de demência, contando de 50 a 60% de
todos os casos, e no Brasil acomete cerca de um milhão de pessoas.
Há pouco tempo, os considerados tradicionais fatores
de risco para DA (idade avançada, histórico familiar de demência e polimorfismo
do gene ApoE 4) mantiveram a prevenção longe das prioridades tanto de pesquisa
quanto da prática clínica.
Entretanto, nos últimos anos, estudos vêm acumulando
evidências de que fatores de risco modificáveis relacionados ao estilo de vida
também são importantes na DA. Uma série de estudos mostra que os mesmos fatores
de risco para as doenças cardiovasculares também contribuem para a DA.
Entre
esses estão a obesidade, hipertensão, dislipidemia, diabetes, sedentarismo,
tabagismo e consumo de álcool. Essas informações, quando rearranjadas e
reavaliadas, sugerem que os mesmos mecanismos deletérios que acometem o sistema
cardiovascular também afetam o cérebro.
Uma revisão sistemática publicada este ano no European
Journal of Neurology traz a seguinte sentença: “Apesar de as pesquisas na DA
focarem no desenvolvimento de intervenções baseado na hipótese da cascata
amiloide, acredita-se que a DA não é uma condição singular definida
exclusivamente por placas e emaranhados, mas sim o resultado de uma
sobreposição conjunta de processos biológicos que constituem formas de
envelhecimento cerebral grave”.
E são justamente esses processos biológicos desencadeados
por uma gama de fatores ambientais e comportamentais que influenciam o
envelhecimento cerebral e a DA. Na ótica da Nutrição Funcional, são vistos como
desequilíbrios fisiológicos, resultado da interação entre os genes com o
ambiente.
No caso da DA,
os desequilíbrios oxidativo, inflamatório, estrutural e neuroendócrino são mais
pronunciados. Nesse sentido a nutrição, considerada causa básica, também é
solução, sendo capaz de modular esses processos prevenindo, retardando e
melhorando a sintomatologia característica da doença.
Na última década, muitas investigações foram
realizadas para avaliar a efetividade da dieta do mediterrâneo na prevenção do
desenvolvimento de doenças crônicas como Alzheimer e principalmente de doenças
cardiovasculares.
Esta dieta
é caracterizada por um alto consumo de peixes, vegetais, legumes, frutas,
cereais integrais, azeite de oliva, baixo consumo de produtos lácteos, carnes e
gordura saturada, assim como o consumo moderado de álcool, principalmente na
forma de vinho tinto.
Em recente meta-análise publicada no Britsh Medical
Journal, foi avaliada a relação entre aderência à dieta do mediterrâneo e a
mortalidade e incidência de doenças crônicas. O resultado mostrou aumento
significativo no nível de saúde. Houve redução de 9% nas taxas de mortalidade
total e por doenças cardiovasculares, diminuição de 6% nas taxas de mortalidade
por câncer e de 13% na incidência de Parkinson e Alzheimer. Em contraste, um
estudo populacional realizado na Polônia avaliou o perfil alimentar de indivíduos
diagnosticados com a DA. Os resultados mostraram um alto consumo de carnes,
produtos lácteos com elevado teor de gordura e açúcar refinado, além de baixo
consumo de frutas e verduras.
O padrão alimentar ocidental possui características
contrárias ao padrão mediterrâneo. É pró-inflamatório, pró-oxidante, promove
desestruturação celular e gera desequilíbrios neuroendócrinos. Esses
desequilíbrios são mais suscetíveis no tecido cerebral devido à sua composição
e atividade metabólica. Composto por 60%
de gordura, o cérebro pesa apenas 2% do peso corporal, usa 20% do oxigênio
que respiramos e em torno de 20% das calorias que consumimos.
Contém 100 bilhões de células conectadas às outras por
aproximadamente 40.000 conexões (sinapses). Este é o número de conexões
cerebrais que estão constantemente mandando e recebendo mensagens que mantém
nossa saúde. Cada uma dessas conexões interage pelas membranas celulares que,
quando não estão saudáveis, perdem efetividade e rapidez.
As membranas celulares dos neurônios são consideradas
peças-chave para a ótima comunicação cerebral. O alto consumo de ômega-6,
característico da dieta ocidental, deixa a estrutura rígida e não funcional, o
que associado a ausência de antioxidantes desse padrão alimentar e a atividade metabólica
cerebral, favorece ao estresse oxidativo, que por sua vez conduz a processos
inflamatórios e vice-versa. Este processo impede a membrana de realizar boa
comunicação e a célula fica incapaz de produzir quantidades suficientes de
energia. Alguns estudos
chamaram a DA de diabetes tipo 3 devido a identificação de resistência a
insulina cerebral caracterizada por estes danos a membrana.
Os ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 e os
antioxidantes são os grandes responsáveis por estruturar e proteger a membrana
celular, além de controlar a expressão gênica, regular o sistema imunológico e
os processos inflamatórios, melhorando o metabolismo como um todo.
Dado o padrão alimentar deficiente nestes nutrientes,
é fácil entender um dos porquês que vivemos hoje uma epidemia de desordens
psiquiátricas e neurológicas.
A íntima relação entre nutrição e saúde vem sendo
intensivamente estudada pela ciência por mais de meio século. No entanto,
modelos convencionais persistem em enxergar um único agente causando uma única
doença associada a um único tratamento. Análises lineares como esta estão
fadadas ao fracasso frente às desordens multifatoriais como o Alzheimer. Um
modelo mais adequado entende que uma condição é resultado de vários
desequilíbrios, e um desequilíbrio pode levar a várias condições patológicas. O
raciocínio sistêmico considera esses desequilíbrios moleculares que afetam todo
o organismo. Identificá-los e modulá-los é a maneiro como a nutrição pode
intervir na DA.
Retirado do site VP Consultoria Nutricional.